A virtude

A virtude, em seu mais alto grau, comporta o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caridoso, laborioso, moderado, modesto, são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, elas são com freqüência, acompanhadas de pequenas enfermidades morais que as desornam e as atenuam. Aquele que exibe a sua virtude não é virtuoso, uma vez que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício mais contrário: o orgulho. A virtude verdadeiramente digna desse nome não gosta de se exibir, é adivinhada, mas se oculta na obscuridade e foge da admiração das multidões. São Vicente de Paulo era virtuoso; o digno Cura d'Ars era virtuoso; e muitos outros pouco conhecidos do mundo, mas conhecidos de Deus. Todos esses homens de bem ignoravam, eles mesmos, que fossem virtuosos; se deixavam ir na corrente de suas santas inspirações, e praticavam o bem com um desinteresse completo e um inteiro esquecimento de si mesmos.

É à virtude assim compreendida e praticada que eu vos convido, meus filhos; é à essa virtude verdadeiramente cristã e verdadeiramente espírita que eu vos convido a vos consagrar; mas afastai dos vossos corações o pensamento do orgulho, da vaidade, do amor-próprio, que desornam sempre as mais belas qualidades. Não imiteis esse homem que se coloca como um modelo e glorifica, ele mesmo, as próprias qualidades a todos os ouvidos complacentes. Essa virtude de ostentação, oculta, freqüentemente, uma multidão de pequenas torpezas e odiosas vilezas.

Em princípio, o homem que exalta a si mesmo, que eleva uma estátua… sua própria virtude, aniquila, só por este fato, todo o mérito efetivo que possa ter. Mas, o que direi daquele em que todo o valor está em parecer o que não é? Quero admitir que o homem que faz o bem sente no fundo do corarão uma satisfação íntima, mas desde que essa satisfação se exteriorize para recolher elogios, degenera em amor próprio.

Oh, vós todos a quem a fé espírita reaqueceu com seus raios; e que sabeis quanto o homem está longe da perfeição, não vos entregueis a semelhante insensatez. A virtude ‚ uma graça que eu desejo a todos os espíritas sinceros, mas eu lhes direi: Mais vale menos virtude com a modéstia do que muitas com o orgulho. Foi pelo orgulho que as humanidades sucessivas se perderam, e ‚ pela humildade que elas um dia deverão redimir-se.

François -Nicolas-Madeleine, Paris, 1863

"O Evangelho segundo o Espiritismo", Cap. XVII, ed. IDE